Entrevistas

Aos saltos de par em par

José Domingos Ribeiro

Débora e Bruna são gémeas. Além das semelhanças físicas, estas irmãs partilham um percurso desportivo ímpar, conjugando desde tenra idade a prática de duas modalidades, voleibol e ginástica. O Desporto em Viana foi conhecê-las.

Filhas de pai hoquista e de mãe voleibolista, Bruna e Débora começaram dentro de água, na adaptação aquática, a exercitar o corpo e mente. Com apenas três anos entraram na ginástica, na Escola Desportiva de Viana, e foram sempre experimentando outras modalidades, desde muito cedo. Com o irmão jogavam hóquei na cave de casa, com a mãe brincavam voleibol, mas desengana-se quem pensa que foi por influência materna que entraram na modalidade.

“Fomos a umas férias desportivas da câmara e lá encontramos uma amiga da escola, a Carolina. Foi por causa dela que fomos para o volei, tínhamos uns dez anos”, revela Débora, a mais faladora das duas e que conduziu as respostas. De lá para cá, agora com 21 anos, as gémeas foram sempre conciliando treinos, jogos, provas e competições nas duas modalidades.

Na ginástica atualmente praticam Duplo Minitrampolim. No processo formativo tiveram de ir competindo neste trampolim e também no grande, mas “nunca gostamos muito do grande”, confessam. O Duplo Minitrampolim “é muito mais rápido e fixe”. Competir em trampolim era uma obrigação para com o clube que a entrada na universidade terminou. Agora competem apenas no mini, que “também era onde ganhávamos mais coisas”.

Na ginástica a competição é individual e mesmo nos resultados por equipa, estes são a soma dos conseguidos por cada atleta. O palmarés das gémeas Neto não é extenso. “Ficamos três vezes em terceiro em sincronizado [trampolim]. Quando acertei, ficamos em primeiro”, recorda-se a sorrir Débora. “Em Duplo Mini já ficamos em primeiro por equipas e ganhamos a Taça de Portugal”. No voleibol sagraram-se campeãs regionais na época transata.

Conciliar as duas modalidades nem sempre foi fácil, principalmente quando os quadros competitivos colidiam. “Avisamos com antecedência que temos provas. Não temos tantas provas na ginástica como temos jogos de voleibol, apenas duas a três competições por ano. Se der para mudar, muda-se o jogo, se não der vamos às provas, pois se não formos aquela prova, não podemos ir às seguintes.”

No voleibol as gémeas fizeram a formação no Voleibol Clube de Viana e jogam agora pela Associação Cultural e Desportiva de Perre (ADC Perre). Bruna é oposta e às vezes dá uma mãozinha como passadora. Débora joga a entradas.

A mãe das gémeas é Cristina Neto, que praticou voleibol até ao ano passado e que, por isso, partilhou o balneário com as filhas na ADC Perre. “Foi fixe mas por ser mãe é diferente. Quem levava na cabeça eramos nós”, sorriem a dizer. Além de companheira de equipa, Cristina chegou a ser treinadora nos escalões de formação, no Voleibol Clube de Viana.

A prática das duas modalidades acaba por beneficiar as gémeas, conseguindo no voleibol uma maior agilidade que lhes permite que fique “mais fácil salvar bolas”. “Mexemo-nos bem e a coordenação motora é melhor”. Já na ginástica aplicam o espírito de equipa que vivem no voleibol. Numa competição recente Débora deu por si a “apoiar como se estivesse no voleibol”. “No voleibol o espírito de equipa é maior, na ginástica queremos que as outras passem, mas se for eu, melhor”.

É a Débora ou a Bruna?

Gémeas verdadeiras são vários os episódios em que são confundidas. “O treinador de ginástica ainda não nos distingue. Ele chama sempre Bruna. A Zeza também não distingue e até temos números diferentes e nunca trocamos” [a Débora é o 8, Bruna o 16].

Daquelas brincadeiras de se fazerem passar pela outra apenas uma vez, na escola primária, trocaram as caixinhas com o material escolar que tinham à frente deles, com o respetivo nome.

No dia-a-dia as gémeas estão mais habituadas a ouvir o nome “Bruna”, acabando por olhar sempre as duas. “Temos amigas nossas que chamavam BrunaDébora. Assim acertam sempre”, contam a rir.

Nas lesões também são similares, tendo as duas partido um braço. “A Bruna não sabe como o partiu! Acordou, jogou com o braço esquerdo partido e depois foi para o hospital”, conta a Débora, sobre o episódio da irmã, quando ainda eram minis a praticar voleibol. A Débora partiu o braço direito, nos trampolins.

A personalidade das duas não é como a semelhança física. “A Bruna é mais teimosa”, conta Débora enquanto confessa ser “mais fácil de levar”. Desportivamente a “Bruna é mais confiante”.

As irmãs partilham também uma tatuagem, um congruente. “Somos gémeas, mas somos diferentes. A maior parte das pessoas acha-nos uma pessoa, mas não o somos”, explica Débora.

Voleibol enquanto for possível…

Débora e Bruna estão no terceiro ano de Ciências do Desporto, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e querem, após os estudos, continuar ligadas ao desporto. Enquanto for possível querem jogar voleibol, “como a nossa mãe”. Na ginástica já pararam um ano, o primeiro na universidade, mas entretanto regressaram, “por causa das pessoas e para desanuviar”. “Queremos continuar ligadas, como treinadoras”, desejam.

Hoje em dia, a semana das gémeas divide-se da tarde de domingo até quinta-feira em Vila Real, sexta e sábado em Viana do Castelo. Chegadas à princesa do Lima têm treino de ginástica e depois o de voleibol. Mesmo por Vila Real praticam ginástica e voleibol.

A família e os amigos já conhecem a forma de estar delas e da importância que o desporto tem na vida delas. Por isso compreendem ausências em festas e outros eventos que muitos jovens não prescindem.

“À sexta temos jantar combinado com amigos. Sabem que a nossa vida passa por isto. Desde pequenas que cancelamos compromissos. Mas também não somos de sair, convidamos sempre alguém para estar connosco. A brincar a nossa mãe até diz que fomos trocadas na maternidade, porque ela gosta de festa e nós não gostamos de confusões”, revelam a gracejar.

Com uma vida sempre passada em pavilhões, Bruna e Débora garantem que “o melhor que o desporto tem são os amigos que se fazem”. “Os amigos que temos não são da escola. As turmas mudavam, mas no desporto eram sempre as mesmas pessoas”.

As referências desportivas acabam por ser… familiares. “O mano Pedro, os pais, o tio Sérgio que esteve na I divisão”, enumeram dando particular revelo à mãe. “Teve os filhos, tirou outro curso e continuou a jogar, trabalhar e cuidar dos filhos”, contam orgulhosas, sem não esquecer o primo Gonçalo, que joga hóquei como o pai.

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