Entrevistas

No ‘endiabrado em chamas’ há dois jovens vianenses

São de Viana e no meio de uma história de amor nasceu uma paixão pelo automobilismo. A escassos dias do Rali de Viana do Castelo, a 7 e 8 de Julho, o Desporto em Viana foi conhecer a dupla JJ Team, que se estreou precisamente nesta competição, em 2015.

Em apenas três anos, a dupla João e José tem ganho muitos adeptos que se mobilizam estradas fora e já conseguiu, neste ano de 2018, fazer a estreia no Rali de Portugal. A dificuldade da falta de apoios que se encontra em todas as modalidades, acentua-se nesta de quatro rodas. Recentemente, por falta de apoios a dupla vianense não participou no Rali de Castelo Branco, inserido na Peugeot Rally Cup Ibérica.

João Carlos Pereira Alves nasceu a 7 de Novembro de 1986, é sócio – gerente da empresa Biojaq e é natural de S. Salvador da Torre. Já José Carlos Morais Rodrigues nasceu a 25 de Setembro de 1992, em Cardielos e é empresário no ramo de lavagem automóvel. João e José conheceram-se quando o primeiro se enamorou pela irmã do segundo. Feitas as contas conhecem-se há treze anos e foi com essa idade que João encontrou José.

Falando da paixão pelas quatro rodas, o mais velho explicou ao DEV: “Não sei onde fui buscar esta paixão pelo automobilismo, mas acho que a tenho desde sempre. Lembro-me de em criança já fazer coleção de autocolantes de carros e em adolescente pedia o carro emprestado à minha irmã para dar umas ‘voltinhas’. Quando conheci o Zé Carlos, ele tinha 13 anos, e como passamos muito tempo juntos, talvez lhe tenha passado este “bichinho. Então, em 2015 decidimos juntar essa paixão e formar a equipa JJ Team, que se estreou em casa, no rali de Viana do Castelo”.

Esta é, portanto, uma prova que não vão esquecer, sendo que esta dupla será das mais jovens no concelho de Viana do Castelo a participar em competições nacionais. Com o nascimento do projeto, seguiu-se a sempre difícil escolha do nome da equipa, no caso parece que foi fácil. “O nome JJ Team vem das iniciais dos nossos nomes (João e José). Achamos que funcionamos bem como dupla porque nos equilibramos de forma a levar este sonho a diante. Por isso, e de certa forma, podemos dizer que as iniciais nos dão sorte pois significam aquilo que somos: humildes, lutadores, amigos, transparentes.”

Pôr o carro sobre rodas

Montar um carro e uma equipa do zero é muito mais difícil que começar qualquer paixão ou do que sonhar. Passar do sonho à realidade é, por vezes, um passo não dado. JJ Team usaram da nomenclatura da modalidade em que se inserem e aceleraram a fundo para “entrarem de cabeça” no automobilismo.

“Nunca pensamos em desistir, mas passamos e ultrapassamos muitas dificuldades para pôr o carro no asfalto. Para fazermos o primeiro rali, trabalhamos dia e noite no carro para estar tudo normalizado, com o Peugeot 106. Mas é de salientar que foi o José o principal responsável para tal pois teve e tem a capacidade de montar seja o que for como ninguém, com uma dedicação incomparável, o que torna o nosso carro ainda mais especial”.

No entanto, “a principal dificuldade é, sem dúvida, o orçamento que tudo isto implica. São vários os gastos que temos para participar num rali. Por isso é que pedimos e contamos com o apoio de alguns patrocinadores”. Esses são “pessoas que acreditam e apostam em nós. Neste momento agradecemos o apoio de Biojaq, cimentos Cosmos, Cardona automóveis, jardinagem Rui Silva, Recirosa e Vianalube”.

JJ Team continuam a correr com o seu inconfundível Peugeot 106 conhecido como “o endiabrado 106 em chamas”. “Adoramos o nosso carro e dá-nos muito gosto correr com ele, principalmente por estar preparado por nós. O nosso carro pertence à classe X1-9, ou seja, classe 1600 cc com tração frontal. Basicamente, as classes são divididas por cilindrada e tipo de tração (frontal, traseira ou integral)”.

Em três anos o subir ao pódio e os primeiros títulos

A 16 de junho de 2018 a dupla vianense conquistou um pódio na geral no Rali de Montelongo, e claro que terá sempre um significado especial. “O primeiro pódio significa muito para nós! Obtivemos um 3° lugar na classificação geral do rali de Montelongo com adversários de carros superiores. Por isso, é um orgulho a nossa “máquina” estar rodeada de outras grandes “máquinas”. Tal como esta conquista, orgulhamo-nos de ser vice-campeões da classe X1-9 no Troféu Inter-municípios, em 2016, e de termos recebido o prémio Revelação do Ano deste mesmo Troféu”.

Também este ano, João e José participaram no primeiro Rali de Portugal, prova tão apreciada pelos amantes de quatro rodas, envolta em espetacularidade. Obrigou a uma troca de “namorada” e a deixar o asfalto para correr sobre terra batida, mas não houve desavenças. O Peugeot 106 saiu de cena para sair da garagem o Peugeot 208 R2.

“O rali de Portugal foi uma experiência única e diferente de tudo aquilo que estamos habituados. Pela primeira vez fizemos um rali de terra e, pela primeira vez, corremos com um carro que não o nosso, com um Peugeot 208 R2. Este rali foi bastante difícil e cansativo, pondo à prova todos os nossos limites mas tornou-se tão compensador: por toda a aprendizagem que trouxemos connosco, pelo ambiente espetacular que se vive e pelo reconhecimento que nos deu. Esperamos poder repetir!”

No troço de Viana do Castelo, e não só, a dupla encontrou muitos curiosos que apoiaram e quiseram ver como JJ Team se “safavam” neste desafio. “Consoante fomos crescendo e evoluindo neste desporto, também o público vianense se foi apercebendo de nós. De ano para ano, notamos que somos mais valorizados, notamos um carinho maior, um apoio especial e transmitem-nos aquela força que nos faz seguir em frente sempre. É indescritível a sensação de estarmos em prova e vermos o público de braços no ar a torcer por nós, a gritar por nós. Sem dúvida que estas pessoas influenciam os nossos resultados, pois vemos que o nosso esforço é reconhecido”.

Carro, rali, adrenalina e risco sempre unidos

É um desporto onde um milímetro pode causar danos irredutíveis no carro e nos pilotos. Sabe-se quem começa, mas não se sabe quem acaba. Se nas grandes equipas é difícil recuperar um carro, imagine-se nas mais pequenas.

O risco, a adrenalina e o limite estão sempre no conta quilómetros, mas não é coisa que assuste João e José. “Quando entramos no carro, esquecemos tudo o resto, deixamo-nos levar por aquele momento e tentamos desfrutar ao máximo ao longo de cada troço sempre com muita cabeça, mas é claro que o risco e a adrenalina estão sempre em jogo! Chegar até aqui já é uma vitória mas no futuro queremos crescer ainda mais, sendo o nosso sonho tornarmo-nos campeões nacionais de duas rodas motrizes. Continuaremos a lutar para tal!”

Como se costuma dizer que o “amor é cego”, assim é esta paixão de João e José pelas quatro rodas, sem medos e sem objeções. Mas também, em qualquer história de amor não pode faltar a confiança, assim é nesta história em que decidir quem ficaria no banco do lado esquerdo e do direito foi pacífico.

Sem rodeios questionamos a José, o navegador, se João é um perigo na estrada. Sem hesitações respondeu: “Não, o João não é um perigo ao volante. Ele consegue enfrentar o perigo ao mesmo tempo que transmite confiança e segurança. Quando está tudo “perdido”, ele saca uma da cartola e consegue sempre surpreender”.

Da mesma forma perguntamos ao João se se sentia seguro com o José a dar as diretivas. “O José é um óptimo navegador. Louvo a coragem dele de se sentar na ‘backet’ do lado direito, confiando na minha condução enquanto tem os olhos postos num caderno com as notas que grita para nos guiar. Eu acho que não tinha esta coragem, o que obviamente ajudou a decidir quem seria o piloto e o navegador”.

Ambos são vianenses, partilham uma amizade, um desporto e podem ser vistos, já este fim de semana, ao volante do “endiabrado em chamas” no Rali de Viana do Castelo.

 

 

 

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