Bilhar

“O bilhar é a minha primeira opção”

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Voleibol e bilhar. Duas modalidades com poucos pontos em comum. Por Viana do Castelo há um nome que as une: Vânia Franco. Com ou sem taco na mão, das suas mãos saem bolas com régua e esquadro para as colegas rematarem ou para um dos buracos da mesa de bilhar. O Desporto em Viana foi conhecer esta atleta internacional portuguesa de bilhar.

O voleibol está umbilicalmente ligado à vida de Vânia. “Quase toda a minha família acaba por estar ligada ao voleibol”. “A minha mãe teve três irmãs e todas elas jogaram voleibol. O meu irmão joga nos seniores do VCV (João Franco)e o Ricardo Lima é meu primo (treinador do VCV na época transacta)”.

“Comecei a jogar com 11 anos, uma paixão incutida desde bebé, no Taurino. Depois passei pelo Vianense e segui para o Voleibol Clube de Viana quando foi criado”. Com 22 anos, Vânia fez uma pausa no voleibol regressando anos depois quando um grupo de amigas formou equipa na ADC Perre e começou a competir no campeonato do INATEL, onde chegou a jogar com a mãe.

No voleibol o jogo que a marca mais foi o que deu o acesso à fase final do INATEL, quando depois a equipa viajou até à Estónia. “Fiz o último jogo em abril, na véspera de emigrar para Espanha. Nesse jogo ganhamos 3×2 e acabei “morta”. Foi até á última gota. Mais tarde descobri que já joguei essa partida grávida”, revela. Durante um período da vida em que viveu em Espanha, Vânia deixou o voleibol e o bilhar mas quando regressou, voltou para as duas modalidades.

Uma brincadeira que se tornou séria

O bilhar surgiu na vida de Vânia como “uma brincadeira”. “Na altura estudava na ESTG e havia um salão de jogos onde ia lá com os meus amigos. Um grande amigo que por lá trabalhava convidou-me a participar em torneios. Comecei a jogar nesses torneios pelo norte de Portugal e também na Galiza. Foi na Corunha que uma jogadora do FC Porto veio falar comigo”, conta.

Vânia deu o seu contacto e passadas duas semanas recebeu um telefonema para ir fazer um torneio entre as jogadores do FC Porto. A direção queria vê-la jogar. “Eu era uma outsider e disse que ia, um bocado na brincadeira. Fui jogar uma modalidade que desconhecia completamente. Nunca tinha jogado, por exemplo, Bola 9, e as outras jogadoras todas já. No fim… ganhei! Desde esse fim-de-semana que sou atleta do FC Porto. Fiquei apaixonada pelo bilhar”.

Desengana-se quem pensa que se trata de um desporto de café envolto em fumo. Nas competições, por exemplo, não é permitido fumar. Há controlo anti-doping.

“No bilhar consegue-se atingir níveis de concentração elevados. Tens de ser perfeccionista e minuciosa, o que acaba por ajudar em tantas coisas do dia-a-dia”, revela dando como exemplo os muitos “miúdos que são excelentes alunos”, pois o bilhar “ajuda na escola, põe o cérebro a funcionar”. No bilhar existem variantes mas a que Vânia mais gosta é Bola 10.

Em 2008 Vânia participou no primeiro campeonato da Europa, onde foi sozinha. Desde 2011 e do regresso a Portugal e às modalidades, a vianense tem representado Portugal nas diversas competições internacionais.

Esta época Vânia Franco sagrou-se tetracampeã por equipas, já somando 13 campeonatos ao serviço do FC Porto. De 19 a 31 de julho participa no campeonato da Europa e de 2 a 4 de agosto no Eurotour, que lhe vai atribuir uma posição no ranking europeu. Desse ranking são apuradas as jogadores que participam no campeonato do mundo.

Apesar de ser uma atleta de alto nível, não é possível a Vânia treinar por Viana. As mesas que existem não têm a qualidade necessária. Quando questionada pelo Desporto em Viana se tinha espaço em casa para uma, Vânia sorriu de forma afirmativa mas “não são baratas”. “E se um empresário ajudasse?”, questionou o DEV. “Seria ouro sobre azul, para poder treinar mais e melhor”, confessou a atleta internacional portuguesa.

Foto: DR

O que une voleibol e bilhar?

Vânia leva do voleibol para a competição por equipas de bilhar todo aquilo que sempre viveu. “Os resultados são mais fáceis de aparecer em equipas unidas com companheirismo, força, união e força de vontade”.

Do bilhar para o voleibol leva a “disciplina e a concentração, para não haver falhas”. “As duas são tão diferentes e acabam por se complementar”, nota.

Nas duas modalidades Vânia tem referências distintas. Miguel Maia no voleibol e no bilhar Daniel Sanchez mas tem sido o vianense Henrique Correia quem a mais tem ajudado no percurso de Vânia no bilhar. “O Henrique é um dos meus melhores amigos, com quem mais aprendi e evolui. Ajudou-me muito naquela altura em que dei um salto maior enquanto jogadora. Era com ele que treinava. É ainda muita vezes a ele que recorro mesmo a nível mental. Quando preciso de ajuda no bilhar, ele é de uma garra que nunca vi, uma força da natureza. Tem uma qualidade incrível e é um excelente professor de bilhar.”

Conciliar nem sempre é fácil. “O voleibol acaba por ficar em segundo plano. Há alturas durante a época que tenho jogo de voleibol e bilhar no mesmo dia e o bilhar é a minha primeira opção e as minhas colegas de equipas sabem disso”.

Ensinar às mais novas

Além do bilhar e de jogar, nesta época Vânia experimentou ser treinadora das minis do VCV. “Tem sido muito giro. Elas ainda estão a aprender e eu também aprendo muito com elas porque acabo por voltar atrás no tempo e reviver quando era miúda e tentar corrigir coisas que se calhar na altura fazia e agora percebo que não estava correto”. “Sou muito mimalha e elas também são mas quando tem se ser também resmungo com elas”, conta-nos para logo dizer que não tem grandes objetivos enquanto treinadora.

Por falar em tempo, como se consegue conciliar tanta coisa? Entre trabalho, filho, bilhar, jogos de voleibol enquanto atleta mas também treinadora e o regresso aos livros para tirar o curso dos seus sonhos, Desporto e Lazer, todos os minutos na vida de Vânia contam. “Só com muita força de vontade e com grande grande ajuda dos meus pais, que são os meus pilares. A minha família é sem duvida um ponto importantíssimo em todos os aspetos”.

Ligada ao desporto desde nova, o filho também já pratica desporto. “O meu filho joga voleibol. Cem treinar uma vez por semana. O que ele joga mais a sério é futebol. Ele gosta das duas coisas e pratica as duas”. “Os miúdos devem fazer aquilo que gostam e conhecer todos os desportos, para perceber aquilo que querem. Há miúdos nestas idades que estão baralhados que não sabem o que gostam, devem experimentar de tudo”, defende.

A formação no voleibol vai sendo garantida pois “todos os anos aparecem miúdos novos que vem das escolas que acham giro e acabam por chamar mais amigos”. “Ao contrário do que pensamos que os miúdos são mais parados, eles procuram o desporto”, entende.

Saltando uns anos de idade, para a atleta o “grande problema” do desporto sénior em Viana prende-se com a falta de alternativas no ensino superior. “Quando chegam aos 18 anos a maioria vai estudar para fora e ou acabam por deixar as modalidades que praticam, ou vão jogar para clubes de fora”, sintetiza. “Muitos cursos não existem em Viana e mesmo que os clubes tivessem condições o cansaço da viagem para vir treinar, mais ter que estudar e a vida extra estudo acaba por não ser fácil de conciliar.”

Para Viana, Vânia tem um desejo… “Já merecíamos uma prova grande a nível europeu em Viana, que mostrasse o bilhar às pessoas e talvez ajudar a acabar a associação ao café. Seria bom para a cidade, para nós e para divulgar o bilhar”.

Foto: DR

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